Existe algo muito precioso na forma como nerds engajam com os assuntos, hobbies, mídias e conteúdos em geral que permeiam os seus interesses. Eu acho fascinante, e digo isso tanto como um nerd autodeclarado quanto como um apreciador de nerds autodeclarado. Gosto de praticar e gosto de observar nerds à solta por aí.
Veja bem, eu não tenho certeza se sei distinguir o interesse nerd do interesse autista. Isso porque, enquanto um nerdola autista e TDAH, as duas coisas sempre estiveram e sempre estarão profundamente interconectadas na minha experiência. Os assuntos sobre os quais eu sou nerd são as minhas hiperfixações de longo prazo ou meus hiperfocos passageiros. Mais que isso, a forma como eu engajo com esses interesses é profundamente nerd, e, é claro, profundamente autista.
Tendo isso em mente, é bem provável que eu misture um pouco os dois. Se você for um nerd neurotípico (ou com questões neuropsicológicas diferentes das minhas, pelo menos) e ler algo aqui que te deixe meio
O jeito nerd (autista?) de gostar das coisas
A maneira como uma pessoa que é nerd num assunto aprecia este é completamente diferente da maneira que um “normie”, digamos assim, aprecia a mesma coisa. Eu diria, inclusive, que o ser nerd está muito mais na maneira de gostar do que no assunto em si.
É um jeito de apreciar as coisas que é mais profundo, mais interessado, mais fascinado, às vezes mais obcecado. O nerd não simplesmente consome uma mídia que ele é nerd sobre e beleza, acabou, vamos pra próxima. Ele disseca a parada, sabe? Ele vai a fundo naquela coisa, ele procura entender as estruturas, as regras, os detalhes. Ele quer mais daquela coisa do que só a coisa em si. Ele deriva coisas da coisa, ele se rodeia da coisa, a coisa se torna quase parte do seu estilo de vida, da sua personalidade.
Por isso que muitas vezes nós temos “categorias” de nerds. Tem o nerd otaku, o nerd de super-heróis, o nerd de cinema, o nerd de livros, o nerd de computação, o nerd de videogames… eu poderia passar muito tempo aqui. E cada categoria dessa evoca uma imagem mental, quase uma caricatura de quem é cada um desses nerds, porque o ser nerd está atrelada a essa paixão muito visível, a esse apreço tão grande e interesse tão profundo que não tem como não ser notável pra qualquer um que conheça minimamente essa pessoa.
O amor nerd por alguma coisa é multiplicador, é expansivo. É um jeito de explorar os assuntos que mergulha tão fundo na interioridade da coisa que se expande exteriormente e se deriva em novas histórias, sites, imagens, desenhos, vídeos, objetos… e, claro, em comunidade. Não dá pra falar o suficiente o quanto estar dentro de fandoms e outros círculos de nerds de forma geral foi importante pra mim enquanto uma criança/adolescente neurodivergente e deslocada.
É maneiro ser nerd hoje em dia?
Existe uma visão popular que aponta uma certa mudança de panorama social em relação a nerds, pelo menos olhando para o que era a caricatura do nerd no início do milênio. Eu não tenho como comparar ao certo, porque eu era novo demais, e não sei se a minha experiência pessoal é suficiente pra expandir pra toda uma experiência coletiva, principalmente por saber que as minhas vivências são profundamente atravessadas também por todas as minhas dificuldades sociais.
Mas eu acho que ser nerd, assim como ser “esquisito” ou diferente de qualquer forma, ainda é e sempre vai ser algo um pouco deslocado socialmente. Quando a gente vê essa retórica do “nerd cool” costuma ser uma de duas opções: ou é uma pessoa padrão LARPando (como dizem os xóvens) de nerd, ou é uma pessoa atraente de fato… para outros nerds.
A questão é que a internet nos permite encontrar mais gente parecida com a gente, né, o que é ótimo. Eu sempre me interessei muito mais em encontrar pessoas parecidas comigo e que se divertem de forma compatível do que em ser “atraente” para pessoas que não têm nada a ver comigo.